Grupa Galo

O dia 19 de abril é conhecido no Brasil como "dia do índio" e a escolha da data remete ao Congresso Indigenista Interamericano, realizado no México entre os dias 14 e 24 de abril de 1940.

O dia 19 foi escolhido porque, em princípio, os representantes indígenas haviam se recusado a participar do evento como coadjuvantes de suas próprias lutas. Entretanto, no dia 19, tomaram a decisão de aparecerem no congresso e tomar parte nas discussões. Um dos grandes desafios na luta dos indígenas é romper a ideia de que eles precisam de tutelas, de quem falem por eles.

Contudo, Daniel Munduruku, indígena e doutor em educação pela Universidade de São Paulo e pós-doutor em Linguística pela Universidade Federal de São Carlos, nos explicou que a palavra “índio” remonta preconceitos e mascara a diversidade dos povos indígenas. Por isso, para Munduruku, a celebração do Dia do Índio representa a celebração de uma ficção. Reflexo disso é a alusão à data feitas nas escolas, que normalmente são feitas através de figuras extremamente estereotipadas com pinturas no rosto e penas na cabeça. “A palavra ‘indígena’ diz muito mais a nosso respeito do que a palavra ‘índio’. Indígena quer dizer originário, aquele que está ali antes dos outros e tem um pertencimento a um povo ancestral”, defende Munduruku. Dessa forma, o pesquisador nos explica que a palavra tem muita força e que talvez o dia 19 de abril devesse ser chamado de Dia da Diversidade Indígena.

Daniel Munduruku

Devido à pandemia, é o segundo abril que o Acampamento Terra Livre (ATL) não é realizado em Brasília. No ATL, representantes dos povos indígenas mostram essa diversidade étnica e de lutas em um momento de união. No último ATL, houve bastante violência da força policial e da força de segurança do Congresso Nacional no momento da manifestação em que os indígenas denunciavam as diversas violências sofridas: desrespeito aos territórios, aos modos de vida, às culturas e, principalmente às vidas – uma cena em que eles fechavam os caixões que representavam a ideia da morte como o extremo de violência frequentemente vivenciada.

As lutas continuam sendo travadas e os povos indígenas conseguiram conquistar o lugar de grupo de risco e têm recebido as vacinas contra o novo coronavírus, visto que houve óbitos devido ao COVID em diversos aldeamentos e entre indígenas que vivem nas cidades. Os indígenas continuam a reclamar seus direitos e buscam respeito, que em tempos de pandemia e nas circunstâncias do atual governo, têm sido ainda mais difícil. Para continuar essa busca, um dos caminhos é evidenciar lideranças indígenas. Natural da Terra Natural da Terra Indígena Araribóia, no Maranhão, Sônia adota o nome de seu povo, os Guajajaras, um dos grupos indígenas mais numerosos do Brasil.Em quase duas décadas de luta pelos direitos das populações indígenas, Sônia, graduada em Letras e Enfermagem pela Universidade Estadual do Maranhão, também se destaca no cenário internacional, por denunciar retrocessos nas políticas e legislações indigenistas.

A expoente do movimento indígena Sônia Guajajara, assim como Daniel, que pertence ao povo indígena Munduruku, diz que não há que se comemorar o dia do índio. A data deveria ser um momento de reflexão e de indignação por todos os ataques, violências, criminalização e assassinatos dos povos indígenas.

 

Por entender que as lutas – note o plural – dos povos indígenas são frequentemente invisibilizadas, o presente texto é um convite para refletirmos sobre a heterogeneidade de identidades indígenas e de suas lutas e um convite ao fortalecimento das mobilizações que continuam sendo muito importantes. Por isso a Grupa se soma a essas ações a fim de celebrar a data como um dia de luta, de reconhecimento da diversidade dos povos indígenas de resistência pelo direito de viver dessas populações. Você conhece os povos indígenas da sua região?

Fontes e Referências:

https://g1.globo.com/educacao/noticia/por-que-19-de-abril-virou-dia-do-indio.ghtml

https://g1.globo.com/educacao/noticia/2019/04/19/dia-do-indio-e-data-folclorica-e-preconceituosa-diz-escritor-indigena-daniel-munduruku.ghtml

https://www.brasildefato.com.br/2020/06/09/povos-indigenas-vivem-momento-traumatico-afirma-sonia-guajajara

https://www.imperatriz.ma.gov.br/blog/nossa-gente/representacao-de-lutas-sonia-e-expoente-do-movimento-indigena-e-feminista.html

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Autor


Livea Franco

Membra Grupa, advogada e mestranda em Saúde Pública.

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