Grupa Galo

Torce pro Galo e não está entendendo o movimento #cucanao ? Este texto é pra você.

Contexto: Cuca foi condenado, junto a outros atletas do Grêmio, por violência sexual contra pessoa vulnerável, no caso, uma jovem de 13 anos. A condenação ocorreu em 1990, três anos após o ocorrido, que ficou conhecido como “O Escândalo de Berna”, cidade onde o crime aconteceu. Os atletas chegaram a ficar detidos na Suíça por 28 dias e, após intervenção do Itamaraty, foram autorizados a retornar ao Brasil e aguardar a conclusão do processo em liberdade. Ficaram impedidos de pisar em solo suíço por 15 anos.

Matéria de 1985 sobre a condenação pelo estupro coletivo de uma garota de 13 anos para o hoje treinador Cuca e mais 4 jogadores.

Por não haver, à época, acordo de cooperação entre os dois países e pelo fato de o Brasil não extraditar seus cidadãos, os condenados nunca cumpriram a pena, cujo prazo de execução expirou em 2004.

Mais informações sobre o caso você encontra aqui, aqui, aqui e aqui.

Tá, mas isso nunca o impediu de jogar, tornar-se um técnico vencedor, inclusive no Galo, onde comandou o time na histórica conquista da Copa Libertadores. Por que o #cucanao agora?

Porque, como sociedade, estamos em constante transformação. Em 1987, quando os atletas foram detidos em Berna, o Fantástico, da Rede Globo, fez uma matéria, disponível na íntegra na Internet, sobre o assunto. Quem assiste percebe que o entendimento da opinião pública à época era majoritariamente contrário à vítima, minimizando a atitude dos atletas e levantando suspeitas sobre a conduta da jovem.

Este recorte histórico é importante para compreender como a carreira de Cuca, assim como a dos demais jogadores, nunca foi afetada. Queremos acreditar que, se a mesma matéria fosse produzida em 2021, não assistiríamos a uma defesa tão intransigente dos atletas ou a uma condenação tão explícita da vítima.

Entretanto seria um erro acreditar que esses posicionamentos ficaram no passado; pesquisa realizada no Brasil em 2016 pelo Datafolha informou que mais de um terço da população culpa a vítima pelos casos de estupro. Avançamos no reconhecimento e entendimento desse tipo de violência, mas ainda há um longo caminho a percorrer em um país que registra em média 180 casos de estupro por dia, segundo o Anuário de Segurança Pública (2019).

Trazer Cuca de volta ao Galo significa ignorar a violência sofrida por mulheres, inclusive torcedoras do Clube, e aflorar gatilhos e sentimentos que gostariam de esquecer ou até mesmo sepultar.

Mas, se a pessoa errou, ela não tem o direito de seguir com a vida dela?

Sabemos que a ocorrência de casos de violência sexual ou de gênero envolvendo jogadores ainda são recorrentes no futebol. Cuca, à época, desculpou-se com familiares, mas avaliou que ele e os colegas foram punidos de maneira muito rigorosa. Em matéria recente do EE, o técnico teria sido convidado a falar e optado por não se pronunciar, o que permite a inferência de que, transcorridos todos esses anos, mesmo à luz do crescente debate sobre o tema, Cuca não reviu sua posição sobre o fato.

Mas isso não é um assunto pessoal? Ele não pode preferir não tocar em um assunto sensível a ele e a sua família?

Cuca é uma figura pública, cujas atitudes têm ampla repercussão na sociedade, como foi o caso no ano em que ocorre. Por serem figuras públicas, Cuca e seus colegas, o caso mobilizou a imprensa e a sociedade, chegando às instâncias diplomáticas do governo. Cuca segue sendo uma figura pública, cujo posicionamento sobre o assunto pode influenciar diretamente atletas, torcida e a sociedade como um todo.

Mas o Cuca é um ótimo técnico, vocês já pensaram nisso? Estão pensando no Atlético?

O que está em questão não é a competência profissional de técnicos e atletas. À medida que o debate público avança, alguns casos tornam-se emblemáticos por reacenderem a discussão, mas definitivamente não se tratam de eventos isolados. O que se busca não é o linchamento ou o foco em uma figura específica, mas sim, a partir da repercussão desses casos, a ruptura com uma estrutura que banaliza e – por que não – fomenta a continuidade de condutas violentas no ambiente do futebol e na sociedade. E, para romper essas estruturas, é preciso priorizar a mudança de atitude em detrimento de interesses particulares.

Recentemente, o Atlético recuou nas tratativas para contratação de um jogador que responde a um processo por violência de gênero. Na ocasião, o presidente do Clube reconheceu as transformações em andamento na sociedade e a necessidade de uma postura mais consciente e responsável por parte da diretoria. É o que esperamos neste momento, por entender que tais atitudes contribuem de maneira significativa para a mudança de que o futebol e a sociedade precisam.

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