Grupa Galo

O voto feminino é fruto de uma longa luta que está muito longe de chegar ao fim.

Em 1932, após pressão popular, iniciada antes mesmo da Proclamação da República, foi instituído o voto feminino. No entanto somente as mulheres casadas, viúvas e solteiras que tivessem renda própria podiam votar. Logo apenas camadas médias da sociedade brasileira puderam usufruir de tal conquista.

 @voto feminino/Instagram

É importante ressaltar que as transformações econômicas, políticas e sociais do final do século XIX não foram suficientes para impedir a reconfiguração da hierarquia dos tempos senhoriais em outros moldes.

O direito das mulheres de votar surge no período histórico logo após o fim da escravidão. Nesse período, o Estado brasileiro caminhou para o liberalismo econômico, especialmente na regulamentação do mercado de trabalho. No entanto a nova ordem política e econômica não incorporou em sua agenda a inclusão dos grupos até então excluídos da sociedade.

Dessa forma, sem políticas específicas para reduzir sua enorme desvantagem social, essa parcela da população viu-se à margem do trabalho livre, ocupando postos de pior remuneração, sob péssimas condições e sem a proteção do Estado. O que, consequentemente, não garantiu o direito de votar às mulheres negras.

Quituteiras no Rio de Janeiro, em 1875
Marc Ferrez / Coleção Instituto Moreira Salles

Para a escritora Cynthia Sarti, graduada em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo, a independência feminina – e aqui, incluso o processo de luta pelo direito de voto – teve classe e cor, pois segundo ela, muitas mulheres negras permaneciam ocupando residências e cuidando dos afazeres domésticos para que as brancas de classes mais altas pudessem circular no espaço público. Ou seja, enquanto mulheres brancas lutavam pelo direito ao voto e ao estudo, as mulheres negras batalhavam para poderem existir.

Dito isso, ainda assim demoraram alguns anos até que todas as restrições ao pleno exercício do direito de voto das mulheres fossem eliminadas, sendo somente em 1946 a extensão do voto obrigatório às mulheres.

68Foto: Wendy Andrade

Um século depois, e a festa da democracia representativa ainda não contempla a multiplicidade de mulheres que somos. Dando um longo salto desde a conquista do direito de voto feminino, vamos para 2016, que seria o segundo mandato da primeira presidenta eleita no Brasil.

Obviamente não é possível ignorar a ascensão da extrema direita em toda a América Latina quando analisamos o golpe sofrido por Dilma, mas meu convite aqui é para analisarmos o machismo como um jogo de linguagem e ferramenta fundamental nesse processo.

Foto Lula Marques/Agência PT

O que aconteceu com Dilma Rousseff nos faz saber que o poder violento do patriarcado não se volta apenas contra as mulheres, mas contra a democracia como um todo, sobretudo na sua versão cada vez mais radical intimamente relacionada com as propostas do feminismo como luta por direitos ao longo do tempo. O que aconteceu com Dilma Rousseff nos ensina a compreender o funcionamento de uma verdadeira máquina misógina, máquina do poder patriarcal, ora opressor, ora sedutor; a máquina composta por todas as instituições, do Estado à família, da Igreja à escola, máquina cuja função é impedir que as mulheres cheguem ao poder e nele permaneçam.

Por isso, no dia 15 de novembro de 2020, vote em mulheres. Vote em mulheres que defendem mulheres negras, mulheres LGBTQI+, mulheres trabalhadoras. Votem, porque cansamos de sermos penetras na festa da democracia.

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  • Membra Grupa, advogada e mestranda em Saúde Pública.

Categorias: News

Livea Franco

Membra Grupa, advogada e mestranda em Saúde Pública.

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