Grupa Galo

CARTA ABERTA AO CLUBE ATLÉTICO MINEIRO
ILMO. SR. Presidente Sérgio Coelho

Belo Horizonte, 16 de março de 2021.    

Prezado Senhor

Prezados Membros do Conselho Deliberativo  

Agradecemos a oportunidade de dialogar com o Clube para apresentar o conteúdo deste documento, redigido originalmente em novembro de 2019. À época, reunimos, por orientação da diretoria, com o ouvidor do Atlético, João Paulo, e, na oportunidade, manifestamos o desejo de discutir nossas propostas com representantes do Clube. Não houve retorno.

Nós, da Grupa, coletivo feminista de torcedoras do Atlético Mineiro, gostaríamos de convidar o Clube a uma profunda reflexão e ao resgate de sua vocação para protagonista de transformações positivas no futebol brasileiro e na sociedade como um todo.  

Um Clube que surgiu do povo, e nele sempre encontrou sua força, necessita estar atento às questões que mobilizam a coletividade. Vale lembrar que o CAM foi dos primeiros a aceitar negros em seu elenco. E, ainda em 1959, época em que as mulheres eram proibidas de praticar futebol, o Galo protagonizou uma das grandes histórias do esporte feminino ao vencer, com público de mais de 20 mil pessoas, o América, por 2×1. Historicamente, o futebol tem sido reduto da perpetuação de estigmas e preconceitos sob o pretexto de rivalidade, mas há muito se discutem estratégias de enfrentamento à violência e à intolerância nos estádios. Apesar disso, a iniciativa de debater o tema tem ficado a cargo de organizações da sociedade civil, de movimentos sociais ou de entidades governamentais, com pouco envolvimento dos clubes. É recente o movimento de alguns no sentido de assumir sua parcela de responsabilidade na promoção de uma forma de torcer mais inclusiva, mais tolerante e também na construção de uma sociedade mais justa em sua diversidade.   

O Clube Atlético Mineiro sempre se orgulhou de seu maior patrimônio: a Massa, cujo perfil é de origem periférica, pobre, preta e apaixonada. Essa entidade, que se une em torno de um amor, tem sua força inequivocamente atrelada à sua diversidade. Somos muitos e não se pode prescindir de nenhum. Em sua história recente, o CAM esteve envolvido em episódios de intolerância e discriminação, que ganharam ampla repercussão na imprensa. 

Vitória Calhau (à direita) foi vítima de gesto machista do Galo Doido (Foto: Pedro Souza/Atlético)
Vitória Calhau (à direita) foi vítima de gesto machista do Galo Doido (Foto: Pedro Souza/Atlético)

 Em setembro de 2018, torcedores do Atlético entoaram cantos homofóbicos e ameaçadores direcionados à torcida rival; no clássico de novembro de 2019, torcedores atleticanos proferiram ofensas racistas a um segurança do Mineirão; em fevereiro de 2020, a atleta Vitória Calhau foi assediada perante a torcida pelo funcionário que representa o mascote do Clube. A resposta oficial do Atlético, nestas ocasiões, veio após intensa repercussão, e mostrou-se insuficiente para assegurar àqueles que foram ofendidos, bem como aos que acompanharam os desdobramentos, que estes foram episódios considerados graves pela instituição. Tal postura colabora significativamente para desencorajar, ofender e afastar parte de seus próprios torcedores que, por vezes, perdem a identificação com o time. Afinal, de que serve um amor que não é recíproco? Cabe ressaltar, ainda, que esses casos precisam ser compreendidos dentro de uma perspectiva ampla e realista, e não como situações isoladas. A intolerância e o preconceito permeiam o cotidiano de quem frequenta o estádio, e a superação desse tipo de problema depende do engajamento dos clubes.

No dia 17 de maio de 2020, Dia Internacional Contra a Homofobia, o Atlético posicionou-se pela primeira vez em seu perfil oficial acerca do tema. Em setembro, o ex-presidente Sérgio Sette Câmara usou seu perfil pessoal para descartar a iminente contratação do atleta Sebástian Villa, à época afastado do elenco do Boca Juniors devido a investigação por violência de gênero. Em que se pesem os esforços – reconhecidos – nas ações de comunicação do Clube, a postura do Atlético ainda é errática no sentido de enaltecer a diversidade de sua torcida e marcar posição no enfrentamento à intolerância e ao preconceito no futebol. Ainda em 2018, o Clube publicou um vídeo sobre o tema: “Para um time que é de todos, todo dia é dia de luta”. Em tom apaziguador, o vídeo se mostrou uma medida inócua; em vez de sensibilizar o torcedor para o problema real da intolerância, diluiu as diferenças, negando a necessidade de lutas importantes na sociedade. Nenhum torcedor se percebe como intolerante ou rejeita o título de time do povo, até que seja confrontado com seu próprio comportamento discriminatório e preconceituoso.   

Em agosto de 2019, a jogadora Paçoca e o jogador Cazares, atletas do Clube, foram vítimas de práticas discriminatórias, de cunho racista, fatos divulgados pela imprensa. Nas duas ocasiões, o Atlético não se manifestou.   

Ao optar pela omissão ou por manifestações eventuais ou protocolares, o Atlético contribui ativamente para a manutenção de comportamentos inaceitáveis e criminosos em sua torcida e na sociedade. É preciso compreender e assimilar o papel do esporte, dos clubes e das entidades esportivas na promoção de igualdade e desenvolvimento social. Somente a partir do entendimento de sua responsabilidade, o Clube poderá colocar em prática medidas de cunho preventivo, não somente reativo.  

A Grupa propõe-se ao enfrentamento do machismo e de todas as formas de discriminação às minorias, notadamente, aquelas relacionadas à cultura do futebol. Por amor ao Clube Atlético Mineiro, apresentamos à direção do clube propostas de ações concretas, com o objetivo de eliminar comportamentos discriminatórios contra nossos torcedores e de nossa torcida com relação a rivais e atletas:  

1- Estabelecimento de um núcleo de ações afirmativas – ligado à diretoria – voltado para o diálogo com toda a diversidade de torcedores, visando tornar o clube uma instituição mais democrática e realmente ligada à Massa. Esta ação reforçará a identidade de clube do povo, além de trazer o clube para o protagonismo em responsabilidade social, na promoção da igualdade racial e na valorização da diversidade étnica, sexual, religiosa e cultural dos seus torcedores e torcedoras. Inclusive, promovendo negros e negras a seu estafe dirigente, o Conselho Deliberativo.    

2- Criação de mecanismos de transparência da gestão do clube e de participação do torcedor nessa gestão. Estas medidas fortalecem a legitimidade e a diversidade da administração da instituição, refletindo a realidade de uma torcida popular, diversa e de massa. A criação de mais categorias de sócio torcedor, com preços populares, além de ingressos mais baratos, assim como o estabelecimento do voto e da possibilidade de ser votado para o sócio, são realidades que alguns clubes brasileiros já adotaram com resultados positivos.  

3- Planejamento anual das ações sociais do Clube, notadamente, em datas referentes ao enfrentamento da homofobia, machismo, racismo e capacitismo com, por exemplo, a utilização de braçadeiras, camisas, faixas alusivas aos temas durante os jogos. Para que o alcance dessas ações seja ampliado, os temas devem ser abordados com funcionários e atletas do clube, de maneira que não sejam meramente veículos de mensagens que os próprios integrantes desconhecem. Inclusão, na formação das categorias de base, profissional, time feminino e Galo FA, e demais modalidades esportivas, de conteúdo histórico e cultural sobre a contribuição de negros e mulheres na sociedade mineira e brasileira.  

4- Produção e veiculação de material educativo as redes sociais e em inserções da TV Galo durante os jogos. Cabe lembrar que há um movimento mundial, que abrange a CONMEBOL e a CBF, com intuito de punir os clubes por práticas discriminatórias durante as partidas. Faz-se necessário que torcedores sejam esclarecidos e sensibilizados sobre a importância e as razões destas medidas, que vão muito além de perda de pontos em campeonatos ou multas dadas pelas federações, conforme o próprio Estatuto do Torcedor, o Código Brasileiro de Justiça Desportiva e o Estatuto de Promoção da Igualdade Racial, entre outros. Essas campanhas devem contemplar, ainda, a defesa do respeito à vida, à segurança e à privacidade de atletas e suas famílias, os quais têm sido constantemente vítimas de campanhas de ódio nas redes sociais.

5- Inclusão no estatuto do Clube de princípios institucionais explicitamente contrários à intolerância e discriminação por parte de dirigentes, atletas, funcionários e conselheiros

6- Estabelecimento de diretrizes objetivas a serem transmitidas à equipe responsável pela segurança do estádio, nas partidas em que o Atlético seja mandante, para que estejam capacitadas a lidar com denúncias e manejo de situações não apenas de conflito, mas de discriminação ou preconceito, de maneira eficaz e humanizada.  

PROPOSTAS PARA O FUTEBOL FEMININO

A maior contribuição que o Atlético pode dar na busca pela igualdade de gênero é o investimento no futebol feminino. Cumprida a exigência de criação da modalidade, é necessário avançar com medidas que visem ao seu fortalecimento. Investir no futebol feminino é acreditar em seu potencial ainda pouco explorado, em compreender que seu desenvolvimento foi prejudicado ao longo de décadas pelo preconceito e por uma política errática que agora precisa ser corrigida e tratada com a merecida seriedade. Ao longo do ano de 2020, mesmo com as restrições impostas pela pandemia, a Massa já sinalizou que está pronta para acolher o Galo Futebol Feminino, e que deseja vê-lo cada dia mais forte e competitivo. Desde a recriação do time feminino no Atlético, no início de 2019, é possível perceber que o Clube tem avançado em sua valorização, mas entendemos que ainda há um longo caminho a ser percorrido e por isso sugerimos algumas propostas:

1- Isonomia de tratamento, nos perfis oficiais do Clube, nos eventos das modalidades feminina e masculina, com informações completas e detalhadas e narração em tempo real dos jogos;

2- Recriação da categoria de base, com investimento e comissão técnica fixa; peneira aberta para inscrição;

3- Criação da Vingadora, mascote feminina do Galo Futebol Feminino;

4- Disponibilização de toda a estrutura disponível na Cidade do Galo às equipes do Galo Futebol Feminino, com treinamentos diários em campo de grama natural, acesso ao refeitório, departamento médico; fornecimento de material desportivo integral às atletas;

5- Inclusão do Galo Futebol Feminino no programa de sócio torcedor GNV, nas visitas ao CT e no acesso às partidas;

6- Previsão no estatuto de percentual mínimo dos patrocínios do Clube a ser investido nas categorias de base e profissional do Galo Futebol Feminino;

7- Conteúdos produzidos pela TV Galo que apresentem a história do futebol feminino no Brasil e no Atlético;

8- Contratações que visem à manutenção de um time competitivo; transparência na tomada de decisões a respeito de contratações e dispensas; apresentação de novas atletas na sala de imprensa; política salarial compatível com a dedicação exclusiva das atletas;

9- Apresentação dos uniformes do Galo Futebol Feminino simultâneo aos da equipe masculina; comercialização de toda a linha feminina nas Lojas do Galo;

10- Incentivo ao convívio entre atletas das modalidades feminina e masculina, com realização de atividades coletivas que promovam a sensibilização sobre a igualdade de gênero;

11- Alinhamento dos calendários junto à FMF/CBF de maneira a possibilitar a realização dos jogos do futebol feminino como preliminar aos jogos das equipes masculinas.

A Grupa estará sempre à disposição para contribuir na construção de um Atlético cada vez mais democrático, inclusivo e popular.

Apoiaram essa iniciativa:



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