Bica, bicudo

Vida longa ao nosso Galo!

Laura Conrado, para a Grupa

Eu tinha uns quatro, cinco anos, mas minha memória me aponta cenas vívidas como as de ontem. Meu pai chegava do trabalho e anunciava a mim e a meu irmão, um ano mais novo, que nos levaria ao campo. Desse muito nova, então, passei a compreender a euforia do “hoje é dia de Galo”. Lembro-me de numa noite termos ido a um jogo no Mineirão. A minha respiração ofegada de ansiedade e também para manter o ritmo nos passados maiores dos adultos. Ainda dá para sentir os pelos do meu braço se retorcerem como naquele dia. Ainda do lado de fora, ouvia o canto da torcida e, quando entrei, nas minhas descobertas de criança, percebi que a torcida da qual eu fazia parte: era a do meu time, a do time do meu pai, do meu avô e da minha família. O Galo que eu gostava pela televisão e nas festas da família, era real e estava diante de mim.

Eu não me tornei atleticana, eu me reconheci uma. Era como se filamentos do meu DNA despertassem diante da massa que lindamente ocupava a arquibancada com as bandeiras quando o time alvinegro entrou no campo. Eu não entendia muito o que acontecia, mas sabia que pertencia àquilo: eu era uma menina, mas entendi que eu tinha que me render ao amor que já morava em mim.

Reconhece-se logo o torcedor atleticano pelo jeito Galo Doido de ser; somos como nosso mascote que entra em campo, afia as esporas e não se intimida diante da torcida rival, batendo no peito como um Galo bom de briga. Várias vezes na minha vida, sem mentira alguma, busquei força no nosso arquétipo para o jogo da vida: não titubear diante das dificuldades, entrar em campo com o que tenho e dar meu melhor, afinal, eu acredito! Já assisti reviravoltas que me dão força para seguir torcendo contra o vento. E a vida, já dizia o Guimarães Rosa, um dos maiores nomes da Literatura nacional e atleticano, “o que ela quer da gente é coragem”

O time da minha família é o time de centenas de milhares delas. Ao longo dos meus 33 anos, me esqueci de diversas brigas, para me unir aos meus familiares na torcida, porque amar o Galo é também amar na gente a herança da nossa família; basta um passe acertado para que o jogo siga. Nunca é só o futebol: são os amigos que fazemos por causa dele (minha Grupa querida e tantos outros!), são as reconciliações que se dão no abraço de gol, são as dores consoladas na resenha pós-jogo com desconhecidos que amam o mesmo que você, são os amores que vão além dos 90 minutos. É a fé que se aprende em campo que molda outras experiências da sua vida e, de repente, você passa a ser mais esperançoso porque viu milagres acontecerem com o seu time.

Cruzamos a bola para a recém-chegada geração alvinegra da minha família, que já grita Galo e chuta a bola tal como um jogador vestido pelo manto alvinegro. Minha mãe não nasceu num contexto onde o futebol era apresentado às mulheres, diferente da minha história, mas espero que os meus filhos sejam levados por mim para que eu assista o brilho de olhos deles ao verem nosso Galo em campo e nossa massa agitando a arquibancada. O amor se perpetua, se compartilha, se multiplica, por isso, o “nosso time é imortal”. Vida longa ao nosso Galo! Feliz 110 anos, nosso clube do coração!

 

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