Bica, bicudo

Tem que ser sempre pra valer

Renata Olandim

GALO e Cinzeiro fizeram o segundo clássico do ano, dessa vez pelo Campeonato Mineiro e num sábado à tarde, dia 1º de abril (“esse resultado é tudo mentiraaaaaa”). Com a 1ª colocação no Campeonato já assegurada pelo GALO com duas rodadas de antecedência, é certo que os três pontos em si não valiam muita coisa para a gente na tabela, exceto manter os 100% de aproveitamento no Mineiro e tentar quebrar a série de invencibilidade do Cinzeirão caveiroso nos clássicos, que já durava 6 jogos.

Depois de, como nos últimos anos, muita disputa (já bem chata) nos bastidores entre ambas as diretorias, os dois times entraram em campo pilhados com toda essa situação e, antes mesmo que pudéssemos analisar qualquer atuação, o GALO levou um gol, com menos de 2 minutos de jogo (típico), num cochilo da defesa e em falha grosseira do Giovanni, que não segurou chute fraco e rasteiro do Thiago Neves no meio do gol – parece que essas falhas individuais em clássicos continuam a nos perseguir.

Com o 1×0 no placar desde o início do jogo, o Cinzeiro, então, fez o que se espera de todo time pequeno ao jogar contra uma equipe superior: se fecharam, recuando a marcação para trás da linha do meio campo e procuraram jogar em cima do nosso erro, aproveitando eventual contra-ataque.

A partir daí, impondo sua qualidade técnica, o GALO, comandado por Cazares, Robinho, Otero e Fred no ataque, embora sem ameaçar efetivamente o adversário, começou a mandar no jogo, chegando a rondar a área do tímido povo, que, para conter nossos avances, teve que fazer faltas perigosas, nos concedendo boas chances de bola parada. E foi numa dessas chances que tudo mudou. Em falta cobrada por Otero, Fred, em disputa com Manoel (o zagueiro mais desleal deles, que “marca” dando socos e pontapés), acertou uma “braçada” em seu marcador, em lance na frente do árbitro, que não pensou duas vezes antes de aplicar (corretamente) o vermelho direto ao artilheiro do campeonato, expulsando-o por agressão gratuita (e reincidente) – o que acontece com o Fred, jogador tão experiente, que sempre é expulso da mesma forma?

– Chega de molecagem, Fred! Agora você joga em time grande! – Créditos: Douglas Magno/O Tempo/Estadão

Até tal lamentável expulsão, o GALO estava com 74% de posse de bola, o que, naturalmente, começou a diminuir gradativamente, uma vez que, em desvantagem numérica, o time não podia mais pressionar tanto lá na frente, tendo que resguardar melhor sua defesa. Ocorre que, mesmo com um jogador a mais, o Cinzeiro também não conseguiu criar muita coisa, limitando-se a, vez por outra, testar o Giovanni em chutes de fora da área. Da mesma forma, nosso time, em tarde pouco inspirada de nosso ataque, também não conseguiu se desvencilhar da forte marcação cinzeirense, o que diminuiu o ritmo do jogo (bem jogado pelas duas equipes).

Diante daquela situação, Roger – que tem uma leitura tática do jogo rara entre os técnicos brasileiros – não quis aguardar nem o intervalo e, aos 40 minutos do 1º tempo, resolveu sacar o até então apagado Cazares e colocar Luan, nosso torcedor em campo, para tentar dar vida ao nosso ataque – o que até aconteceu, mas, sobrando apenas 5 minutos para o final da primeira etapa, não houve tempo para muita coisa.

No segundo tempo, as coisas continuaram como na primeira etapa, sem grandes chances para as duas equipes – com exceção de um gol bem anulado do Cinzeiro e um lance ou outro – com o jogo muito disputado no meio campo. Isso até que, em novo vacilo da defesa, em uma jogada de lateral (lamentável), o GALO tomou o 2º gol, desta vez impedido, mas validado pelo mal posicionado bandeirinha.

Com a derrota quase certa – embora a torcida do tímido povo, respeitando a grande equipe que enfrentavam, como sempre, não emitisse qualquer barulho nas fúnebres arquibancadas – Roger, então, resolveu mexer no ataque, tirando Robinho e Otero para dar lugar ao estreante Marlone e ao atleticano Rafael Moura, o maior He-man que você respeita.

E foi esse último que, como vem acontecendo desde seu retorno ao GALO, botou fogo no jogo, quando, aos 40 minutos, aos trancos e barrancos e com muita raça (lembrando até oPratto) fez bela jogada pela esquerda, limpou três marcadores do Cinzeiro e tocou para Elias, dentro da área, chutar para o gol e marcar, iniciando aí uma pressão grande no outro time, já totalmente recuado – pressão essa que talvez pudesse ter começado antes, caso as alterações tivessem ocorrido mais cedo.

 

– Assistência de He-man e gol do Elias, que vem crescendo a cada jogo – Créditos: Bruno Cantini/Atlético

 

E foi também o He-man que, quase no último lance do jogo, em boa (e única) jogada de Marcos Rocha pela direita, botou a bola pra dentro do gol, mas em posição de impedimento, levando o mesmo a ser corretamente anulado e nos tirando aquele “empatezinho com gosto de vitória” que chegou a ser comemorado por alguns segundos.

Final do jogo e mais uma derrota para o Cinzeiro no ano e, em meio a vários comentários e reclamações, muitos começaram com o discurso, aqui consagrado pelo Deus Ronaldinho, de que não valia nada e que “quando tá valendo, tá valendo”, o que, pra mim, em se tratando de ATLÉTICO x Cinzeiro,é só desculpa de mau perdedor e desmerece nosso clássico.

Ora, quando o GALO enfrenta o Cinzeiro, o NATURAL e ESPERADO é a nossa vitória e manutenção de uma das maiores freguesias do Brasil. Qualquer coisa menos que isso incomoda sim, mesmo que o que esteja em jogo seja mesmo somente o prazer de ganhar do rival. Inclusive, se pararmos com esse papinho, talvez nossos jogadores assimilem mais o espírito de luta que sempre foi marca de nosso time e que estamos acostumados a ver, sobretudo nas grandes equipes que montamos nos últimos anos (saudades Pierre, Donizete e Tardelli s2).

Enfim, agora é aguardar a definição de que equipe enfrentaremos nas semifinais (América ou URT) e fazermos nossa parte para chegar na final, talvez contra o Cinzeiro (se eles fizerem a parte deles). Se isso acontecer, espero mesmo (e acredito, porque confio na grande qualidade do time e do treinador) que, como disse o Elias ao final do jogo, com “11 contra 11 tudo será diferente”, talvez até com gols do Fred, pra se redimir do papelão de ontem. Só assim pra tudo voltar à normalidade em Minas Gerais.

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