Bica, bicudo

Galo Rico, Galo Pobre, Galo Doido (de Pedra)? Ou não?

 

por Avestruz Anônimo

Há alguns dias o site de Época publicou matéria intitulada “As finanças do Atlético-MG: como sobrevive o clube mais agressivo do futebol brasileiro” como parte de uma série de reportagens acerca das finanças de todos os principais clubes do Brasil[1]. Já foram várias as tentativas da imprensa brasileira de analisar o tema, mas não raro os textos têm sido mais opinativos do que factuais e, por que não dizer, superficiais. Desta vez, entretanto, a análise pareceu ser feita de forma mais equilibrada e com melhor conhecimento de causa.

Como o assunto desperta muita atenção e debates acalorados nestes tempos de “futebol gourmet” (ou qualquer outra nomenclatura que se adote para nomear este jeito diferente que os torcedores de hoje têm de se relacionar com seus clubes de coração), pode ser interessante ir um pouco mais fundo na análise do nosso time de coração. Afinal de contas, aqui é Galo, [piiiiii]!

A principal conclusão do artigo de Rodrigo Capelo na Época é a de que “Não há no futebol brasileiro quem conviva tão bem com o risco quanto o Atlético-MG”. Para sustentar este ponto de vista, o autor menciona o fato de que o Galo toma um volume elevado de empréstimos bancários ano após ano e investe muito no time de futebol (de alguns anos para cá). Tudo verdade.

Além disso, entretanto, o que dizem os números do balanço do Galo?

Vamos direto ao que sempre nos assombra, a dívida: o total das dívidas do Galo com o Fisco é de R$ 284 milhões. O total da dívida com outros credores é de 173 milhões. Além disso, de relevante, o Galo deve R$ 88 milhões a clubes. Estes são os maiores números no passivo.

Sobre as dívidas com o Fisco, é importante pontuar o seguinte: com a adesão ao PROFUT, o Galo consolidou toda a sua dívida no parcelamento, portanto não há nada que esteja vencido e não pago. A dívida é grande, mas com a autorização judicial que o clube conseguiu para utilizar o dinheiro bloqueado da venda de Bernard para o Shaktar Donetsk (cerca de R$ 57 milhões) este valor deve ter sido reduzido para algo em torno de R$ 227 milhões. E, o mais importante de tudo, o Galo fez a opção por pagar as primeiras parcelas com o depósito. Com isso, quitou seis anos de parcelas e só volta a se preocupar com esta dívida na próxima década.

Sobre as dívidas com credores diversos (empréstimos e financiamentos), o mais relevante é o que não está dito no artigo publicado no site de Época: o Galo pagou mais do que tomou emprestado, já considerando juros, em 2016. Segundo os balanços anuais de 2016, 15 e 14 disponíveis no site do clube (www.atletico.combr), a evolução dos empréstimos e financiamentos nestes três anos foi a seguinte:

 

Ano 2013 2014 2015 2016
Emp./financ. Curto prazo 68,3 49,8 57,7 55,6
Emp./financ. Longo prazo 104,4 127,8 130,6 117,4
Emp./financ. Total 172,7 177,6 188,3 173,0

(valores arredondados em milhões de Reais)

 

O que se percebe claramente é que a dívida total relativa a empréstimos e financiamentos, ao longo dos últimos 4 anos, praticamente não variou. Na verdade, se compararmos o final de 2016 com o final de 2013, o perfil da dívida parece ser melhor, já que uma parcela menor está classificada como de curto prazo (55,6 contra 68,3 milhões de reais). Além disso, como se disse acima, o valor total da dívida, que havia aumentado ao longo de 2015, caiu mais de 15 milhões ao longo de 2016. E, finalmente, é importante apontar que os valores nominais das dívidas de 2013 e 2016 são praticamente iguais, o que representa uma redução em termos reais, pelo menos, do montante da inflação acumulada neste período. Portanto, embora seja possível concordar com a afirmativa de que o Galo é um clube que “lida bem com o risco”, não dá pra fazer o mesmo em relação a afirmativas bombásticas tipo “a conta vai chegar”. Não com base nestes números.

Sobre a qualidade desta parte da dívida: cerca de R$ 56,9 milhões são realmente dívidas com bancos, conforme o balanço. Este montante é que sofre a atualização mais pesada, com taxa equivalente ao CDI mais juros. Mas a maior parte da dívida é com entidades não financeiras, sendo que R$ 62,1 milhões são divida com a empresa EGL Empreendimentos, do Ricardo Guimarães. Sobre esta dívida, se (e um grande “se”) for realmente verdade que é uma dívida que se paga com uma parcela fixa mensal pequena e um percentual sobre venda de jogadores, podemos também dizer que é algo que não “aperta” o fluxo de caixa normal do clube (pelo menos não de forma muito relevante)[2]. Esta dívida com a EGL compõe um total de mais de R$ 110 milhões que sofrem atualização pela SELIC, ou seja, juros altos, mas não tanto quanto os cobrados por bancos.

Sobre as dívidas com clubes, o que se pode dizer é que valor é historicamente alto, embora seja, ainda assim, crescente. Este valor era de R$ 64,1 milhões já no final de 2013, e chegou aos mencionados R$ 88 milhões no fim de 2016. As informações que constam do balanço, neste particular, são bem poucas, e fica difícil fazer qualquer tipo de análise mais profunda. De qualquer forma, apenas para fins de comparação, o rival azul classifica este mesmo tipo de passivo como “títulos a pagar” e o valor no final de 2016 era de R$ 66,6 milhões[3].

Existe ainda um outro número, menor e sobre o qual não há nenhum detalhamento no balanço, que são as “exigibilidades com atletas”. A julgar pela posição na qual esta dívida está no balanço, logo após as “exigibilidades com clubes”, é possível especular que também se tratam de valores devidos a atletas além da folha normal de pagamento do clube. Sendo isso mesmo (ou não), vale a menção ao fato de que este número sofreu um enorme salto em 2013, passando de menos de um milhão para cerca de R$ 34,7 milhões no final de 2014 (seria o valor devido ao R10?). De lá pra cá, vem sendo drasticamente reduzido ao longo dos anos: baixou para R$ 21,4 milhões em 2015 e depois para R$ 13,7 milhões em 2016. Ponto pra administração atual.

Ou seja, embora seja inegável que o Galo ainda deve muito dinheiro no geral, o detalhamento destes números não parece demonstrar que o clube está “no fio da navalha”. O Galo é, sim, um clube que aprendeu a viver sua circunstância e tem mantido um endividamento alto, mas parece ter encontrado alguma forma de equilíbrio naquilo que à primeira vista pode parecer caótico.

E, já que estamos especulando sobre um de nossos assuntos preferidos (Galo, [piiiiii]), vamos adiante, de novo pegando um gancho no artigo de Época: qual é (se é que existe) a estratégia da administração e o que vem pela frente?

Diz Rodrigo Capelo que o Galo espera ansiosamente pela “retomada” do Shopping Diamond Mall, o que deve ocorrer em 2027. Na verdade, o site do Galo indica que o arrendamento começou em 1992. Sendo o prazo de 30 anos, o Galo deveria voltar ao controle total do empreendimento em 2022. A informação sobre o prazo de arrendamento não está disponível no site do clube.

Informações disponíveis na internet dão conta de que o Galo recebe cerca de 15% das receitas do Shopping. Não é possível confirmar a informação, mas a rubrica “Receitas Patrimoniais” (a única onde faria sentido considerar a receita do Shopping) das demonstrações de resultado dos anos de 2013 a 2016 mostra que não houve grande variação: um mínimo de R$ 7,7 milhões em 2013 e um máximo de R$ 9,7 milhões em 2014. Em 2016, R$ 9,5 milhões.

A receita de 15% é pequena perto do retorno que o Shopping pode dar ao clube. Certamente, ou o arrendamento será renovado com a Multiplan ou refeito com outra empresa (clube de futebol não é administrador de Shopping), mas não é difícil imaginar que em bases bem mais lucrativas do que no contrato original, até porque o Shopping já se provou extremamente lucrativo. O risco para um novo interessado, atualmente, é muito menor do que no momento em que o Shopping terminava de ser construído e não se sabia ainda qual seria o sucesso do empreendimento. Menor risco para o investidor, maior retorno para o Galo. Aqui vale apontar que, diferentemente de um estádio onde a rentabilidade é menos estável e portanto o risco é maior, um shopping representa um fluxo muito pouco mutável de receita já líquida dos custos.

Nesta parte, portanto, concordamos com a visão do Rodrigo Capelo: o Galo provavelmente conta com essa carta na manga para dar um salto de receita a partir da renegociação ou de uma nova negociação de arrendamento do Shopping.

Mas o patrimônio em si tem outro efeito: garantia. Diferentemente de outros clubes que não tem patrimônio imobiliário significativo, ter a propriedade de um dos mais rentáveis e valiosos shoppings de Belo Horizonte certamente reduz o risco dos credores do Galo e permite uma posição um pouco melhor para as negociações e renegociações de dívida das quais falamos acima. E ainda temos a Cidade do Galo e o Labareda, que não são um shopping no coração da zona sul mas também não são pouca coisa.

O que parece ser o toque final desta estratégia é o investimento no time. O elenco do Galo é, pelo 4o ou 5o ano seguido, um dos mais fortes do país. Custa caro, mas a administração tem conseguido alavancar as receitas com patrocínios, televisão, sócio-torcedor e (ainda bem aquém do possível) bilheteria. A estratégia que me parece estar por trás desse conjunto é simples e direta: time bom aumenta visibilidade, participa de mais campeonatos, ganha mais, chama mais torcida. Se o futebol brasileiro realmente caminha, como tudo indica, para um cenário onde alguns poucos clubes se destacarão dos demais como potências nacionais, a administração do Galo parece ter enxergado que a única forma de estar neste grupo é investir pesado no time. Todas as outras atitudes tomadas pelo clube parecem voltadas a suportar essa idéia.

Será que há alternativa? Será que o Galo poderia adotar, por exemplo, a postura do Flamengo, que passou os últimos anos com times “meia-boca” para focar na redução sistemática de seu endividamento? Acredito que não, por um motivo simples: o cenário de distribuição do dinheiro disponível no futebol brasileiro é muito tendente a beneficiar os times que têm, hoje, as maiores torcidas, e este é um dado do passado (as torcidas já existem). O Flamengo pode se dar ao luxo de ter um time ruim e vai continuar recebendo muito mais que a maioria dos clubes da Série A (o Corinthians também, mas ainda não conseguiu tirar o pé do atoleiro em que se meteu com seu estádio). O Galo não pode se dar a este luxo. É um dos maiores times do Brasil hoje, sempre foi, mas se quiser fazer parte do “grupo de elite” que a nova realidade econômica do futebol tende a criar, o Galo, diferentemente do Flamengo e do Corinthians, tem que fazer acontecer. Como? Time bom, muitos títulos. “Bola na casinha”, como disse Kalil.

A outra alternativa é arrumar um mecenas que resolva injetar dinheiro no Galo até sair pelo ladrão, como ocorre hoje com o Palmeiras, mas o clube não tem controle sobre isso.

Ou seja, o Galo é um time que “vive de risco” no futebol, sim, porque provavelmente entendeu (eu concordo) que precisava ser assim. E não é absurdo dizer que se trata de um risco calculado e que pode ser contrabalanceado pelos outros fatores que foram expostos aqui.

Se é isso mesmo, só o Nepô pra dizer. Se não for, pelo menos a gente fica aqui falando do Galo e já tá bão demais.

Tomara que seja, e tomara que dê certo demais. Que o Galo faça do Brasil inteiro o seu terreiro. Depois, quem sabe, o mundo. Por quê não?

 

Avestruz anônimo é amigo da grupa e quis colaborar com nosso site. Twitter: @GalodeEsquerda

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[1] Disponível em http://epoca.globo.com/esporte/epoca-esporte-clube/noticia/2017/05/financas-do-atletico-mg-como-sobrevive-o-clube-mais-agressivo-do-futebol-brasileiro.html?utm_source=twitter&utm_medium=social&utm_campaign=post. Acesso em 28 de maio de 2017.

[2] Informação disponível em http://www.otempo.com.br/superfc/atletico/atl%C3%A9tico-voltar%C3%A1-a-pagar-d%C3%ADvida-milion%C3%A1ria-para-ex-presidente-ricardo-guimar%C3%A3es-em-julho-1.197348. Acesso em 28 de maio de 2017.

[3] Informação disponível em http://www.cruzeiro.com.br/imagem/bancodearquivos/32112.pdf . Acesso em 28 de maio de 2017. Diz a nota 8: “8) TÍTULOS A PAGAR. Registrado em sua maior representatividade por exigibilidades decorrentes de aquisição de direitos econômicos de atletas de futebol profissional e de obrigação com parceria em direitos econômicos de atletas”.

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