Além das 4 linhas

Unidas na torcida e nos ideais

Matéria do jornal O Tempo. Clique aqui para visitar a postagem original. 

Quando um grupo de mulheres atleticanas se uniu no Twitter para manifestar sua insatisfação quanto ao desfile de lançamento do uniforme do time, em fevereiro deste ano, elas não imaginavam a repercussão que isso teria. Ao se juntarem, elas perceberam que, além da paixão pelo Atlético, o grupo nutria sentimentos comuns como o combate a preconceitos machistas, homofóbicos e raciais dentro e fora de campo.

“Na noite do evento de lançamento, um grupo de mulheres que estava acompanhando o desfile na rede social do Twitter se manifestou, se uniu virtualmente e redigiu uma carta de repúdio ao evento que teve clara conotação machista”, conta a jornalista Elen Campos, que cedeu o espaço no seu blog para a publicação.

Depois de meses de conversas quase diárias por mensagens, os encontros saíram do ambiente virtual, principalmente em dias de jogo do Galo. Elas formaram um grupo de amigas, ou melhor, uma “Grupa”, no feminino mesmo. “O nome Grupa veio de uma brincadeira. A gente sofreu alguns ataques, e algumas pessoas ficaram ironizando que era um grupinho, uma panelinha. E como era um grupo, até então, formado só por mulheres, a gente falou: ‘não é um grupo, é uma grupa’”, conta a estudante de arquitetura Marina Rebelo. “O que nos une é a paixão pelo Galo e o repudio a formas de preconceito que encontramos no estádio, especialmente o machismo, por nos atingir mais diretamente”, explica a jornalista Mariana Pires.

As formas de torcer e de se comportar no estádio são bem definidas pelas torcedoras, que não admitem gritos homofóbicos, por exemplo. “A Grupa quer um futebol menos preconceituoso. A gente é contra grito de homofobia, de ofensa racial, a gente é contra ofender bandeirinha só porque é mulher. Então a gente busca, realmente, lutar contra o preconceito e fazer com que o futebol seja mais inclusivo”, relata a gerente de projetos Alice Quintão.

Formalizada. Um dos objetivos atuais da Grupa é se juntar para ir ao campo. “Quando sai de casa para o estádio, se você for mulher, pensa duas vezes. A roupa que você vai vestir e a companhia com quem você vai. É muito difícil uma mulher ir sozinha ao estádio. E a importância que eu vejo na Grupa é criar essa abertura para as mulheres se agregarem e estarem juntas naquele espaço que sempre foi predominantemente masculino”, ressalta a cantora e compositora Flávia Ellen.

Com esse objetivo, elas criaram uma conta da Grupa no Twitter (no perfil @grupacam) para que outras mulheres possam se unir. “Sugerir deixar de ir no estádio para quem gosta de futebol chega a ser ofensivo. A minha sugestão é sempre se cercar de amigas e amigos de confiança. A Grupa está sempre presente nos jogos, e se alguém quiser ir e não tiver companhia, é só entrar em contato que será muito bem recebida”, convida Mariana.

Juntas contra o assédio nos estádios

Uma das principais reclamações das mulheres que frequentam o estádio é o assédio no campo e nos arredores. “Eu já fui de calça larga e camisa adulta, com 10 anos, para não ser assediada”, conta Flávia.

“E não é só no ambiente do estádio: tomar uma cerveja na porta, pegar o metrô na volta, andar pelas ruas no entorno, há risco de assédio e violência em todas essas situações”, explica Mariana. E a Grupa também luta contra esse tipo de ataque. “A gente quer que ir a campo seja uma coisa mais fácil para as mulheres, que seja mais seguro”, fala Alice. (APM)

Em quase dez meses de relacionamento – desde fevereiro as meninas conversam quase diariamente pelas redes sociais –, já é certo afirmar que as integrantes da Grupa viraram boas amigas. “O contato se manteve permanente, e a amizade foi sendo construída e fortalecida. Hoje, participamos das vidas umas das outras, apoiamos projetos pessoais e nos encontramos sempre no estádio e também fora dele, além de estarmos sempre abertas a novas participantes que se identificarem com essa história”, ressalta Mariana Pires.

Além de estarem juntas na torcida pelo Galo, as atleticanas comemoram o fato de compartilharem ideias e princípios semelhantes.

“Não me sinto mais tão sozinha com meus pensamentos e atitudes. Claro que conheço mulheres e homens com mesmos desejos e visões de mundo, mas agora a proporção é muito maior. É muito bom poder ter com quem dialogar de forma tão leve e amorosa sobre assuntos que são tão pesados. Quando o mundo lá fora não compreende ou não quer compreender o que a gente quer, é bom ter a quem recorrer, nem que seja para um desabafo. Isso já ganhamos. Todas nós estamos nos cercando de mulheres incríveis e inspiradoras, cada uma a seu jeito”, destaca Elen.

“A melhor coisa da Grupa é a amizade, na verdade, eu conheci mulheres muito maravilhosas como torcedoras do Atlético, como profissionais, como ativistas do feminismo. Sem falar que eu estou vivendo um ano com o Atlético muito mais legal, porque minhas companhias para ir ao estádio estão muito mais diversificadas, e é ótimo isso. Eu não perco nenhum jogo por falta de companhia”, conta Alice. (APM)

 

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