Além das 4 linhas

#Nãosecale

      Imagem: Clube Atlético Mineiro            

Poliana Oliveira, para Grupa

 

Poderia ser mais uma das várias campanhas que surgem a cada 8 de março, poderia ser a propaganda de uma marca qualquer, com uma linda modelo maquiada com um hematoma no olho, mas, não. É a campanha do time do meu coração e traz como símbolo uma mulher fabulosa, Maria da Penha, que fez das violências sofridas em âmbito doméstico uma razão para lutar para que outras mulheres não passem por isso e que os agressores sejam penalizados, dando origem à Lei que leva seu nome. Maria da Penha ficou paraplégica em função das agressões sofridas.

Essa hashtag publicada pelo Clube Atlético Mineiro mexeu comigo de forma intensa e visceral, depois de tantas decepções (Erazo, Robinho, florzinhas entregues no campo…). Não esperava uma campanha assim do Clube e muito menos que pudesse me afetar tanto. Foi como se muitos dos vários momentos pelos quais eu passei e havia de modo racional silenciado dentro de mim, tivessem acordado aos berros, me sacudido e gritado: “Ei Polis, não se cale, não se cale!”

Eu sofri violência doméstica. (E como é difícil verbalizar isso, meu Deus!!!!)

A violência doméstica é brutal, pois acontece no lugar onde você deveria estar mais seguro, é cometida por quem deveria te amar e te proteger. Ela nos apavora, nos sufoca de tal modo que o silêncio é um refúgio. Sufocar o grito, o desespero, a dor é tão comum e acaba nos violentando, às vezes, por toda a vida.

A violência doméstica é brutal (…) Ela nos apavora, nos sufoca de tal modo que o silêncio é um refúgio

Durante muitos anos o silêncio foi a coisa mais ensurdecedora da minha vida, mas era como um escudo de proteção. Esse “calar” não apagava a infância de violência sofrida dentro de casa, apenas tornava mais fácil seguir adiante.

Inúmeras vezes vi minha mãe chorar em silêncio, durante anos ela se calou, pois, o mais importante era a família, e, além disso, essa situação iria mudar algum dia, as ameaças jamais seriam concretizadas, ela deveria ter um pouco mais de paciência, afinal “Deus nos dá aquilo que somos capazes de suportar”, não é mesmo?

O silêncio da minha mãe era para me proteger, blindar a minha alma de criança daquela dor, que ela escolhia suportar muda, sozinha. Ela não podia destruir a imagem que eu tinha do meu pai, afinal os problemas eram do casal, era responsabilidade dela preservar a nossa família.

Contudo, as agressões não pararam, pelo contrário, aumentaram a ponto de termos medo de dormir e sermos atacadas durante a noite, não tínhamos a quem pedir socorro, porque ninguém quer ouvir, ninguém quer se meter em “coisas de família.” E a vida seguia… Amarga, sufocada, calada.

Eu tinha 13 anos quando cheguei da escola no fim de uma tarde quente e vi minha mãe sentada na cadeira amarela, na porta da casa onde morávamos e ela estava recostada no tanque com a cabeça baixa, o braço engessado até quase o ombro, os dedos redondos de tão inchados… Nunca mais me esqueci do olhar da minha mãe, era de uma dor muito maior do que a dor física, tinha vergonha, medo, amargura, tinha falta de ar.

Na noite anterior, depois de mais uma das várias brigas, tinha-se quebrado o resto da louça, amassado a gaiola do pássaro preto, jogado terra na comida, insultado-a de todas as formas e finalmente, quebrado o braço esquerdo da minha mãe, mas naquela noite uma outra coisa também foi quebrada, O silêncio. Havia tanto pavor, mas havia também coragem e vontade de acabar com tudo aquilo.

No dia seguinte, minha mãe finalmente formalizou a denúncia por agressão na Delegacia da Mulher e entrou com ação de divórcio pedindo a separação de corpos. Depois de muitas idas e vindas, a bebida não seria mais a desculpa, nem o ciúme seria visto de forma romântica pra justificar tanta violência e dor.

Nós sobrevivemos, caladas, durante muitos anos, queríamos gritar e não podíamos, não havia quem estivesse disposto a ouvir. Minha mãe, assim como a D. Maria da Penha, teve que se vestir de coragem, enfrentar os medos e os olhares condenatórios e dizer BASTA! Tenho enorme orgulho da minha mãe, que me ensinou dentro da sua simplicidade que nós mulheres devemos lutar e ter coragem de enfrentar as convenções e se colocar como protagonistas das nossas histórias. Quebrar o silêncio não foi fácil pra ela, mas ajudou a moldar a mulher que sou hoje.

 

Nós sobrevivemos, caladas, durante muitos anos, queríamos gritar e não podíamos, não havia quem estivesse disposto a ouvir.

 

Hoje, quando eu vejo essa campanha e penso nos muitos anos de silêncio, nas muitas mulheres que se calam diante de agressões, que se anulam em relacionamentos abusivos, que se calam. Meu pai continuou a nos agredir durante muito tempo depois do divórcio, houve abandono afetivo, insultos e muita dor. Meu pai jamais se desculpou por todas as coisas que ele fez, por nenhum tapa, nenhum insulto, mas foi importante não calar a dor, e não nos submeter a continuar em silêncio.

Por que nos calamos?

Porque ainda é difícil reconhecer um relacionamento abusivo, acreditamos que vai ser só “daquela vez”, porque ele nunca vai ter coragem de cumprir as ameaças, em muitos casos, porque nos sentimos culpadas e envergonhadas.
Essa campanha alcança uma dimensão que ultrapassa os gramados e as arquibancadas. Ainda temos muita desconfiança depois de tantos dissabores com a postura machista e omissa do nosso time em casos recentes, mas vemos com esperança e alento que nem tudo está perdido e que esse é o nosso momento. Não vamos mais nos calar e a cada dia nossa voz estará mais e mais alta, gritaremos, se necessário, até nos ouvirem. Esta é a hora, não tem regresso.

Não se cale, não me calo!

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1 Comment

  1. Lívia

    março 8, 2018 at 7:58 pm

    Poli, você me emocionou profundamente! Saber que o rompimento do silêncio e a resistência da sua mãe foram responsáveis por esse ser humano maravilhoso que você se tornou trazem um certo alento ao meu coração. Mas a verdade mesmo é que eu desejaria que essa Poli menina nunca tivesse passado por nada disso! Sinta meu abraço apertado e saiba de toda minha admiração e carinho! Beijos mil!

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