Além das 4 linhas

As nossas vozes sempre ecoaram pedindo respeito

por Petra Fantini

Ela está falando desde o início, desde que escolheu sua profissão. Me deixa trabalhar. Fez faculdade, estágio. Foi para a redação, para os centros de treinamento dos clubes, para enfim chegar ao estádio com um microfone em mãos. Animada, fazendo a cobertura jornalística da partida, ela ignorava os comentários dos torcedores da arquibancada sobre sua bunda.

Quando ela chegava em casa, via seu texto no site do jornal. Procurava os comentários positivos, ignorando xingamentos sobre sua suposta ignorância, questionamentos sobre regras básicas do esporte. Ela sempre falou: me larga, me deixa trabalhar.

Apesar do que se gosta de acreditar, os grupos socialmente minoritários na verdade são maioria numérica. Há mais mulheres do que homens no mundo, mais negros e pardos do que brancos no Brasil – e, mesmo se não for maioria, a comunidade LGBT brasileira é composta por milhões de pessoas.

E esses grupos sempre estiveram em espaços supostamente exclusivos, incluindo o futebol. Lá na década de 1980, Regiane Ritter impunha sua presença como a primeira jornalista mulher a entrar em vestiários masculinos para fazer entrevistas. Em 1986 Regiane já enfrentava o jornalista Milton Neves, quando ele afirmava que mulheres não entendem de futebol.

O surgimento da Grupa em 2016 veio de uma reivindicação pelo respeito às mulheres do futebol, torcedoras, jogadoras, jornalistas, mulheres em todas as áreas do esporte. A jogadora Formiga pede uma chance ao futebol feminino há anos. Quando as jogadoras da Seleção Brasileira assinaram uma carta pedindo para que a comissão técnica da então treinadora Emily Lima não fosse demitida, elas não foram ouvidas pelos homens no comando da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

Há dois anos a Grupa pede para que nos deixem torcer, trabalhar, jogar bola. Durante este percurso, não foram poucos os que julgaram nossas demandas como desnecessárias, risíveis, como se tivéssemos o objetivo sórdido de prejudicar o futebol ou até mesmo o Galo. Agora, porém, as hashtags de empoderamento feminino geram marketing positivo. #DeixaElaTorcer e #DeixaElaTrabalhar são iniciativas positivas que devem ser comemoradas, mas é importante ficar atento ao que é apropriação e o que é mudança efetiva.

Recentemente, por exemplo, o Esporte Interativo realizou concurso para escolher uma mulher para narrar, direto do estádio, o jogo de volta da semifinal da Liga dos Campeões. Entretanto, a narração da campeã Vivi Falconi foi transmitida no segundo canal do EI, com muito menos telespectadores, enquanto o canal principal transmitiu a mesma partida na voz de um homem, o jornalista André Henning. Ou seja, a emissora não confiou na qualidade do trabalho de Vivi.

Mulheres lutam pelos seus direitos há décadas, mas sempre fomos apedrejadas, consideradas sensíveis demais. Sempre quiseram abafar nossa voz, e agora, de repente, homens se interessam nas nossas causas. E então todos param para ouvir o que o EI, a Fox Sports e a ESPN Brasil têm a dizer sobre o assunto. Mas depois das campanhas, dos concursos e reality shows que escolhem narradoras para uma ou outra partida, essas emissoras irão de fato mudar seu quadro de jornalistas? Essas narradoras terão outras oportunidades no futuro? E as jornalistas que já atuam nos campos e redações, terão seu trabalho respeitado?

É aquela história que já contamos algumas vezes. Pergunte para as mulheres da sua vida quantas vezes elas já deram ideias em reuniões de trabalho, foram ignoradas, um homem falou a mesma coisa depois e foi ouvido. Até mesmo quando se trata dos nossos direitos, as coisas só mudam quando os homens começam a falar. É assim também quando a gente está em uma festa e só consegue se livrar das investidas de um cara quando falamos que temos namorado. Porque, em geral, homem só respeita outro homem. “Mais feminista do que eu?”, já diria o agressor Dado Dolabella.

O clube do bolinha que é o futebol, espaço fértil para a masculinidade tóxica florescer sem barreiras, sempre foi tensionado pelas mulheres que têm o mesmo direito de fazer parte desse ambiente. Que os homens somem suas vozes às nossas, mas não se esqueçam que nós sempre estivemos aqui.

 

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