Além das 4 linhas

Amor infinito, preto, branco e colorido

Foto: Agência i7/ Mineirão

Por Elen Campos, do CAMikaze
* Texto assinado pela Grupa, uma união de torcedoras e torcedores atleticanos contra o machismo, o racismo e a homofobia no Clube Atlético Mineiro.

Arrumar uma faxineira é mais difícil. Pedir uma cama de casal em um hotel sem receber olhares é impossível. Preencher uma ficha no consultório médico e responder o nome do cônjuge do mesmo sexo pode ser humilhante. Quem brinca com um símbolo LGBTQ não sabe o cotidiano de uma pessoa LGBTQ. Nossos direitos estão sendo arrancados a rodo pelo mundo afora, e usam nossa causa para “brincar” com rival, sendo que atacam parte de sua própria torcida. Estou exausta.”.

Esse foi o relato de uma das participantes da Grupa, atleticana de corpo e alma que, de novo, me fez questionar todas as horas, os dias, meses e anos de vida dedicados ao futebol – mais especificamente ao Atlético. Como fazer parte de um ambiente que insiste em causar tamanha tristeza a tanta gente? O incômodo não era só meu. Ali, no microcosmo do grupo da Grupa, onde só entra amor, compaixão e empatia, nos colocamos a repensar nossas vidas. Valeria mesmo toda essa pena? O amor ao Clube conseguiria superar mais essa decepção?

Queremos ser uma torcida reconhecida pela homofobia?

“São só alguns torcedores, não representam a maioria”. “Há coisas mais importantes para se preocupar no mundo”. “Puro mimimi. O mundo tá ficando chato demais”. Argumentos recorrentes, ainda que desgastados pela falta de relação com a realidade, os números, a ciência. Quando um grupo se coloca a fazer ações ofensivas como as de usar símbolos de uma luta pela vida para provocar e supostamente desmerecer o rival, ele sabe que tem respaldo de grande parte da torcida. Ele não teme as instituições que, por sua vez, lavam as mãos. Óbvio, foi obra de um grupo que não representa o todo atleticano – grupo nenhum dá conta de representar um universo tão diverso de pessoas, sabemos bem. Mas é claro também que respinga em todos nós. É esse mesmo o título que queremos erguer? Ser considerada uma das torcidas mais homofóbicas e misóginas do país? O que o clube tem a ganhar com isso?

Números X Mimimi

Se quiserem fazer parte dos estádios, os LGBTQs têm de esconder quem são. Até porque, fora deles, a desumanidade assusta. Somos um dos países mais homofóbicos do mundo. Ao menos cinco casos de violência contra os LGBTQs são registrados todos os dias no país. Uma homofobia que começa, ah, se começa!, na piadinha que diminui, no comentário que segrega, na ridicularização que oprime. Não achar que crimes nascem com pequenas atitudes é não entender nada de cultura, psicologia, sociologia. É acreditar que dá para separar coisas facilmente, que nada se contamina, que tudo fica paradinho no seu quadrado. É acreditar num mundo quadrado.

Recentemente, uma torcida organizada do Paysandu, a Banda Alma Celeste, resolveu tirar os gritos homofóbicos de seus cânticos, além de trazer a bandeira do arco-íris para a arquibancada, em um lindo gesto de convite à congregação pacífica. O resultado, como era de se esperar, foi longe de ser amistoso, resultando inclusive na agressão física de membros da torcida. No Galo, a torcida Galo Queer, que nasceu na internet, nunca conseguiu migrar para o estádio, afinal, o amor ao time é enorme, mas o amor à vida é maior.

E vamos, Galo, melhorar o mundo

Já são 48 do segundo tempo, tá passando da hora. Já se foi o tempo que a responsabilidade com o todo social ficava a cargo do governo. Não é de hoje, todas as organizações sociais foram convocadas a assumir seu papel de vigilantes reguladoras. Por isso chama-se responsabilidade. Cada uma, em seu campo, com o alcance que possui, é corresponsável por questões grandiosas como garantir a segurança da população, colaborar com o crescimento econômico de um país e, principalmente, promover os direitos humanos. Nenhuma instituição escapa disso.

O Atlético é um clube de futebol. Clubes de futebol são instituições. Logo, o Atlético é uma instituição social. Gigante. E como tal, pode e deve contribuir para tornar esse um mundo melhor. Vamo, Galo, ser agente transformação. Combina demais com a gente esse protagonismo.

Fazer o quê?

Não há uma receita pronta, mas já existem diversas iniciativas mundo afora a apontar um caminho. Um caminho que pode ter muitas controvérsias, dificuldades, dúvidas , pois que novo. Mas que certamente mira uma vida menos bélica, dura, triste. Porque, sim, dá para manter brincadeiras, provocações e rivalidades sem precisar apelar para o preconceito que torna vidas tão insuportáveis.

Nós sabemos que não é fácil mudar uma cultura. E, claro, a culpa não é só nossa. Nem do nosso clube, nem do futebol. E sabemos também que um clube é hoje uma empresa, tem muitas questões a pensar e resolver no seu dia a dia. Mas o que estamos falando aqui é de humanidade. De direitos humanos. E esse não é um assunto secundário, nem no esporte, nem em lugar nenhum no mundo.

É por isso que vimos aqui convidar o Galo a não esquecer o seu DNA e voltar a ser líder de novo. A estar na linha de frente de um movimento que não tem mais volta, mas que pode demorar mais a acontecer e fazer muita gente sofrer, perder a paixão pelo esporte e até mesmo a vida. Há trilhas no campo que podemos percorrer. Claro, existem ações de curta, média e longa distância para atingirmos as metas. Só não dá para ficar parado e tomar um tá ligado a cada ação mal pensada, a cada atitude errada da sua torcida, de um dos seus.

Listamos algumas metas que você pode abraçar agora mesmo. Do marketing ao social. Cada iniciativa conta.

. Incentivar a presença e promover a segurança das mulheres nos estádios e em seus arredores. 
. Incentivar a presença e promover a segurança do público LGBTQ nos estádios e em seus arredores. 
. Posicionar-se imediatamente com veemência contra atos de racismo, homofobia e machismo cometidos por seus torcedores ou representantes. 
. Reintegrar as camadas sociais mais pobres ao estádio.

Este texto é um convite à liderança. A não deixarmos que o apagão do preconceito, tão danoso e vergonhoso, tenha vez e voz na nossa história. Nós temos a força, a massa e o dever. É só querer, Galo. Basta cumprir nosso destino de ser a voz que primeiro anuncia um novo amanhã.

Texto originalmente publicado no blog da Elen no site da ESPN. Clique aqui para acessar. 

 

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