Além das 4 linhas

A fome e o Galo

Por Laura Conrado
Foto: Jackson Romaneli/Infinito Fotografia

 

“Não quero a faca nem o queijo. Quero a fome”, sentenciou Adélia Prado em seu poema que leva exatamente este nome. A poeta, que evita o termo poetisa como quase toda mulher que faz poesia, nos ensina uma grande verdade da vida: tudo começa na fome. De que vale o alimento e a faca para cortá-lo, se não o quero? Contudo, se anseio por ele, se o desejo, farei de tudo para obtê-lo.

Adélia tem 81 anos, sendo 40 de vida literária. Sua obra é permeada pela redescoberta da simbologia para uma vida com sentido. Em palestras, cita filósofos e escritores conhecidos, mas se apoia preponderantemente em sua experiência de vida. Aborda o vazio inerente ao ser humano e a busca por respostas nas artes, na religião e na filosofia.

A oportunidade mais recente que tive de ouvi-la falar foi em 2016, numa palestra promovida pelo projeto Sempre um Papo, do escritor e gestor cultural Afonso Borges, também Galo Doido, veja só. A poeta narrou um caso ocorrido anos atrás, quando participou de um programa da extinta TV Itacolomi e recitou um conhecido poema de sua autoria, Casamento (vale a leitura). Ela conta que quando retornou à sua cidade foi abordada por uma mulher que trabalhava como doméstica, que disse ter adorado a receita de peixe que ela ensinou na televisão. Gracejos à parte, Adélia mostrou como a mensagem do poema foi atingida: dar significado ao que há de mais ordinário, como limpar um peixe. Talvez tenha sido a única vez que aquela mulher tenha percebido que sua vida é digna de poesia: a arte é capaz de promover essa sacralidade que cada um deve conferir à própria existência.

A mineira de Divinópolis, mãe de cinco filhos, dribla grandes críticos literários refratários aos que simplificam a poesia, e fura a marcação de formalismos que demandam um leitor pronto. Adélia deixa de ser mais uma jogadora no campo das ideias e das palavras para tornar-se uma craque que refuta escrever para um seleto público: é a carismática camisa 10 que marca o gol e se exibe, ainda que com seu discreto jeito, para a torcida, ao reconhecer que as histórias, sejam elas contadas por prosa ou por poesia, são universais. Assim como o futebol, as palavras são do povo, ou deveriam ser. Vale ainda dizer que, além de querida pelo público leitor, Adélia é amplamente frequentada na academia. “Cumpro a sina. Inauguro linhagens, fundo reinos (…) mulher é desdobrável. Eu sou”, ela mesma diz no poema Com licença poética.

Popular como a história de um amado time de futebol iniciado no parque Municipal de BH, Adélia será homenageada pelo nosso Clube Atlético Mineiro com a entrega do Galo de Prata nesta quarta-feira, 28 de junho. Homenagem justa a uma mulher que se destaca nas letras – e que é Galo Doido!

Que a trajetória da nossa poeta nos inspire à fome citada no começo do texto. Que a tão estimada raça e fé atleticana guie nosso time a compor seus melhores versos em parágrafos bem próximos. Vamos, Galo!

Viva Adélia!

Laura Conrado é da terceira geração 100% atleticana de sua família. Autora de diversos livros destinados ao público jovem, jornalista e aluna do programa de pós-graduação em Estudos Literários da UFMG.

 

 

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